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Projeto Guri é modelo no uso da música como meio de inclusão social

Postado em Cursos, palestras e seminários em 12/07/2019

(Alunos de violão do Polo Ubatuba do Projeto Guri - Divulgação)

Por Rosualdo Rodrigues

No último dia 30 de março, o Projeto Guri, mantido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, se viu ameaçado. O governo paulista anunciou que iria fechar unidades do projeto devido à necessidade de cortar R$ 150 milhões no orçamento. Isso significaria reduzir drasticamente a iniciativa que atualmente oferece aulas de música e outras atividades para 50 mil crianças e adolescentes, de 6 a 18 anos, em 336 polos distribuídos por 280 municípios.

A notícia provocou forte reação de alunos e professores e também de artistas que já participaram de atividades do projeto. Para eles, a medida não levava em conta que o Guri não é só um projeto artístico, mas social. “Poderia citar centenas de relatos sobre vidas que foram transformadas por esse projeto, que se entrelaça do social ao musical, se funde numa rica mistura e proporciona excelentes resultados”, diz a violonista e cantora Josiane Gonçalves, professora no Guri desde 2009.

A campanha de protesto nas redes sociais ganhou tanta adesão que o Governo de São Paulo, em 1º de abril, voltou atrás, anunciando que o projeto será mantido, mas será preciso fazer cortes mesmo assim. Inclusive, de acordo com o site G1, funcionários de unidades das regiões de Campinas, Presidente Prudente, Itapetininga, São Carlos e Araraquara receberam aviso prévio e o comunicado de que encerrarão atividades.

Transformando vidas

A preocupação quanto à redução ou fim do Projeto Guri faz sentido quando se sabe que ele começou em 1995 e, desde então, já atendeu cerca de 770 mil jovens na Grande São Paulo, interior e litoral. Também faz parte do projeto parceria com a Fundação Casa (que presta assistência a jovens de 12 a 21 anos incompletos), mantendo polos destinados aos que cumprem medidas socioeducativas dentro da instituição.

(Breno Chaves)

O violonista e professor Breno Chaves, que atuou como coordenador artístico-pedagógico de cordas no Projeto Guri de 2012 a 2014, conta que nesse período teve chance de visitar alguns dos polos que ficam dentro dos centros da Fundação Casa e pôde conferir os resultados do trabalho. “Ouvíamos os agentes de segurança dizerem que o dia em que o educador vai lá é o grande dia para os internos, é do que eles mais gostam”.

Segundo Chaves, o Projeto Guri começou muito com essa visão do social, deixando a parte musical em segundo plano. “Depois, em gestões mais recentes, a música começou a ser um pouco mais reforçada. Pensávamos: vamos fazer de um jeito que não seja só a coisa lúdica, para socializar a criança, mas fazer música de verdade. Foi nessa época, inclusive, que começamos a fazer os livros didáticos do projeto, escritos por músicos convidados, sobre diferentes instrumentos”.

Veja linha do tempo do Projeto Guri

Mestre e aluna no mesmo palco

Para Josiane Gonçalves, o Guri é um projeto de extrema relevância para a sociedade. “Ele usa a música para lapidar vidas. As aulas são ministradas coletivamente e o educador tem o propósito de musicalizar, ensinar teoria musical, proporcionar vivências musicais significativas e o ensino do instrumento”. Um das alunas de Josiane, inclusive, hoje é sua parceira profissional no Quarteto Abayomi, de violões.

(Quarteto Abayomi - esquerda para a direita: Gabriele Leite, Josiane Gonçalves, Juliana Oliveira e Guilherme Sparrapan)

“Tive o grande prazer de ter em uma das minhas turmas a então iniciante de violão Gabriele Leite, hoje uma grande promessa do violão brasileiro. É concertista, formada no Conservatório de Tatuí, e graduanda de Violão da Unesp. Este ano, ela participará como bolsista de um dos maiores festivais de violão da atualidade, o Festival de Koblenz, na Alemanha”, conta a violonista e professora.

Gabriele entrou no Projeto Guri em 2005, aos sete anos de idade, na cidade de Cerquilho. Teve aulas de violão com Josiane Gonsalves. Em 2010 entrou no Conservatório de Tatuí. Em 2013 teve de largar o projeto Guri devido a agenda apertada. “O Guri me preparou muito bem para os palcos. Foi lá que aprendi o que é trabalhar em grupo, socializar, fazer música de câmara, respeitar espaços. E não deixei de acreditar que com dedicação é possível fazer história. O Guri te faz mudar como ser humano. Se não fosse pela existência do projeto, talvez minha vida teria tomado outro rumo”.

Grande demais

Breno Chaves reconhece que o Projeto Guri cresceu demais e precisa de adaptações. “Foi crescendo e de repente ficou de um tamanho absurdo. Aí começaram a fazer várias modificações para atender aos alunos de uma forma melhor, e isso causou um inchaço. Muita gente, muitos cargos”, diz ele. O violonista acredita, no entanto, que isso apenas reflete o tamanho de São Paulo, “um Estado que é um país, grande e diverso”. “Mesmo que você tenha um projeto pedagógico muito claro, tem que adaptar a cada região, à tradição musical de cada lugar, aproveitar essa tradição local”.

(Gabriele Leite)

A produtora cultural Annelise Godoy concorda que adaptar é a solução: “Boas iniciativas devem ser corrigidas, ajustadas, reorganizadas se necessário. Mas a força de transformação que ela traz jamais pode ser vista como um número financeiro ou um gasto público, e sim, neste caso, como o maior investimento humano que este Estado já fez, em todos os sentidos”.

No dia 1º de abril, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também prometeu aplicar integralmente os R$ 94,7 milhões previstos no orçamento deste ano para o Projeto Guri, mantendo todos os polos em funcionamento. “O Guri deveria ser celebrado como um dos mais sérios e prospectivos celeiros de novos talentos do país, nada menos do que isto. Mesmo diante do recuo e de novas promessas do governo”, afirma Annelise.

Confira a íntegra de artigo da produtora cultural Annelise Godoy e o depoimento da violonista Gabriele Leite sobre o Projeto Guri