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Violão brasileiro concorre no Grammy Latino com Yamandu Costa e Brasil Guitar Duo

Brasil Guitar Duo (Dougloras Lora e João Luiz). Crédito: Gal Oppido.

Por Rosualdo Rodrigues e Alessandro Soares

O violão brasileiro está muito bem representado na competição do Grammy Latino 2018, cujos vencedores serão anunciados em 15 de novembro, em Las Vegas. Para começar, Yamandu Costa recebeu duas indicações. Concorre a melhor álbum instrumental, com o disco Recanto (Bagual), e, ao lado de Renato Borghetti, a melhor álbum de música de raízes em língua portuguesa, com Borghetti/Yamandu (Estação Filmes).

Também na disputa está o Brasil Guitar Duo, de Douglas Lora e João Luiz Rezende. A dupla é finalista na categoria melhor álbum de música clássica, com o disco Leo Brouwer: The Book of Signs/ Paulo Bellinati: Concerto Caboclo (Naxos), gravado na companhia da Delaware Symphony Orchestra, que tem sede em Wilmington, Delaware, Estados Unidos, sob regência do maestro também americano David Amato.

Reputação
“Parece que nos últimos anos, para além de sua importância local e de um reconhecimento maior por parte da comunidade especializada internacional, o violão brasileiro tem marcado presença também nas cobiçadas listas do Grammy e do Grammy Latino”, avalia Sidney Molina, violonista fundador do Quaternaglia, crítico da Folha de S. Paulo e professor do FIAM FAAM (SP) e do IECG (Belém).

Para ilustrar, mais um exemplo recente: em janeiro deste ano, o maravilhoso CD Outra Coisa, do violonista carioca Marcello Gonçalves com a clarinetista israelense Anat Cohen – dedicado ao compositor pernambucano Moacir Santos – concorreu ao Grammy 2018 na categoria jazz latino. Anat também emplacou na mesma indicação o disco Rosa dos Ventos, com o Trio Brasileiro, do qual o violonista Douglas Lora também é integrante. Eles não ganharam, mas foi mais uma vitória para o violão brasileiro.

Sentindo-se “muito privilegiado” pelo reconhecimento, Douglas destaca a importância que o nosso violão tem ganhado no mundo. “Não há dúvida que o violão brasileiro vem crescendo mundialmente, com todos esses violonistas que estão jogando lá pra cima a reputação desse instrumento. Belinatti, Yamandu, Marco Pereira, Ulisses Rocha...”, enumera.

Dois violões, maestro e orquestra
Lora chama a atenção ainda para o grande número de artistas que têm tocado nossa música no exterior. “Esse interesse já era crescente ao longo dos anos, mas está no ápice agora”, afirma. E Leo Brouwer: The Book of Signs/ Paulo Bellinati: Concerto Caboclo é uma boa prova do que ele fala. O disco foi gravado por sugestão do empresário do duo nos Estados Unidos à época, que era o mesmo do maestro David Amato.

“Ele nos aproximou e disse que devíamos fazer alguma coisa juntos. Foi um processo bem longo até chegar à gravação. Fizemos, inclusive alguns concertos para levantar fundos”, recorda Douglas Lora, que, junto com João Luiz, gravou pela primeira vez com uma orquestra. Uma experiência nova e, para eles, muito diferente. “Tem muita gente envolvida no processo de gravação, tem que ser rápido, ágil, tínhamos que estar muito preparados. O espectro de edições num CD como esse é muito menor. Aprendemos muito”, ele avalia.

Mas, a favor do Brasil Guitar Duo estava o repertório, de dois compositores com quem Douglas e José Luiz estão familiarizados. “O Concerto Caboclo de Bellinati foi composto pra gente. Estreamos em 2012, com a Osesp, e tocamos várias vezes depois. Do Leo Brouwer, nós já gravamos um disco todo com obras dele (Leo Brouwer – Music For Two Guitars, 2016)”, lembra Douglas Lora. No disco The Book of Signs, de Brouwer, é gravado pela primeira vez.

Sidney Molina ressalta a importância da indicação do Brasil Guitar Duo na categoria “música clássica”. Em primeiro lugar, por ser por um álbum com orquestra, coisa rara no meio do violão mundial. Em segundo, por trazer a estreia de concerto do cubano Leo Brouwer, que é o principal nome da composição para violão da atualidade.

E em terceiro lugar – principalmente – por trazer em primeira gravação o concerto de Paulo Bellinati. “Ter um compositor brasileiro, numa obra orquestral de música clássica, como parte  do Grammy Latino 2018 dobra o valor do prêmio para o violão brasileiro. O disco tem recebido críticas excelentes pelo mundo afora, e não será nenhuma surpresa se os três paulistas (João, Douglas, Bellinati), o cubano Brouwer e os parceiros americanos da orquestra de Delaware forem anunciados ganhadores no próximo dia 15 de novembro”.

Concorrência acirrada
O Brasil Guitar Duo tem como concorrentes na categoria de melhor álbum de música clássica o casal de pianistas nova-iorquinos Carlos Franzetti e Allison Brewster Franzetti (Buenos Aires Noir), o pianista catalão José Menor (Enrique Granados: Goyescas), o maestro uruguaio José Serebrier (José Serebrier Conducts Granados) e a compositora argentina Claudia Montero (Mágica y Misteriosa)

 Yamandu Costa também tem páreo duro na corrida pelo prêmio de melhor álbum instrumental. Os outros concorrentes são trabalhos dos brasileiros Hermeto Paschoal & Grupo (O Mundo dos Sons), Hamilton de Holanda Trio (Jacob 10ZZ) e Airto Moreira (Aluê), além do venezuelano Miguel Siso (Identidad).

Produção artesanal e latinidade
Recanto
, porém, é cheio de trunfos. A começar pela forma artesanal de produção. “Como foi completamente gravado em casa, a gente estava ali sempre em volta ouvindo sem parar. Foi um processo demorado, feito com calma, muito bem pensado. A gente opina e argumenta junto e normalmente concorda bastante musicalmente. Cada um acrescenta uma ideia”, conta Elodie Bouny, violonista, coprodutora e também mulher de Yamandu.

Vale destacar também no disco a presença mais acentuada da sonoridade gaúcha e o repertório de acento latino. Elodie ressalta que Yamandu sempre viveu entre o mundo latino-americano e o mundo brasileiro. “Em casa ouvimos mais música latina (principalmente Argentina) do que música brasileira. É uma linguagem muito natural para ele. Provavelmente, nunca vai parar de explorar essa linguagem”.

A última faixa do disco é o Allegre Solemne da famosa La Catedral, de Agustin Barrios, com a participação de Elodie. Segundo ela, Yamandu acrescentou o bandoneon do argentino Martin Sued, ‘deslocando’ o timbre do bandoneon muito associado ao tango e aplicar em um clássico do repertório do violão. É a ideia do revisitar surpreendendo. “O baixo do Guto Wirtti e a percussão do Marçalzinho vieram completar o arranjo. Eu toco a versão original para violão e o Yamandu criou um segundo violão e improvisou alguma coisa também”.

Yamandu Costa e Renato Borghetti.

Prêmio a serviço da indústria
Na categoria de melhor álbum de música de raízes em língua portuguesa, Yamandu e Borghetti terão que vencer os compatriotas Anastácia (Daquele Jeito), Almir Sater & Renato Teixeira (+AR) e as cantoras portuguesas Mariza (Mariza) e Sara Tavares (Fitxadu).

Se o violão brasileiro vai sair da festa do Grammy Latino com troféus, não se sabe. Mas a simples indicação é um sinal do respeito internacional que nossos instrumentistas e compositores têm alcançado. “Sabemos que o Grammy é um prêmio da indústria, é o momento em que a indústria da música diz a si mesma o que interessa a ela própria”, observa Sidney Molina.

E o violão nacional, pelo que se sabe, não interessa a indústria desde hoje. O próprio Molina relembra: “O violonista brasileiro Laurindo Almeida (1917-1995) recebeu, ao longo da vida, 11 indicações de Grammy – e venceu cinco. Yamandu Costa, o fenômeno mais importante do violão brasileiro deste século, segue pelo mesmo caminho”.

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