Coluna Gilson Antunes

Professores fazem manifesto sobre assassinato da violonista Mayara Amaral

Manifesto sobre o assassinato de Mayara Amaral (USP, UNESP, UNICAMP).

Quando uma tragédia se abate sobre um membro de nossa comunidade, é necessário transformar a dor do luto em luta e ampliar o debate sobre as ações coletivas necessárias à construção de uma sociedade mais justa e segura para todos e todas. Dessa forma, o debate sobre a segurança pública não tem uma intenção meramente punitiva, mas de esclarecimento dos valores sociais implícitos que fornecem uma chave para evitar ou reduzir tragédias. Os segmentos mais frágeis de nossa sociedade, evidentemente, são vítimas mais frequentes dessas tragédias, cujos desdobramentos têm como contexto os nossos valores, aquilo que aprendemos a aceitar no cotidiano. O papel das instituições é pressionado por esses valores coletivos.

Neste momento, a comunidade musical e violonística está em luto e chocada pela morte violenta e brutal de Mayara Amaral. O crime foi considerado latrocínio, mas muitas pontas soltas do caso foram descartadas. Também a cobertura oferecida pela imprensa noticia o caso em um discurso que, de certa forma, culpabiliza a vítima e deixa margens ao julgamento do comportamento moral de Mayara. A irmã da vítima, Pauliane Amaral, tem descortinado esse discurso nas redes sociais. O mínimo que esperamos é que a investigação do crime supere os preconceitos arraigados e manifestos no contexto da tragédia e nas inaceitáveis críticas veladas à vítima.

O crime de feminicídio abrange desde a presunção de posse até a escolha de vítimas vulneráveis que são apresentadas quase como se merecessem ser punidas por confiar nos laços afetivos. A cultura machista tem aqui um papel que oculta os sinais de opressão e naturaliza padrões de relacionamento desfavoráveis para as mulheres. Mayara se foi, mas sua vida e sua morte nos mostra de modo cristalino a necessidade de aprofundar o debate sobre o feminicídio e sobre a cultura machista em nosso meio.

Exigimos das autoridades o aprofundamento da consideração de todos os aspectos desse crime hediondo, que apresenta inúmeros sinais de mais um feminicídio, dentre os inaceitáveis 13 crimes do gênero que acontecem diariamente em nosso país. Manifestamos também nossa esperança de que a atuação acadêmica e artística de Mayara repercuta em nossas ações e reflexões.

 Em sua dissertação de mestrado, defendida recentemente, a violonista discutiu a questão do lugar da mulher na sociedade através da atuação de compositoras brasileiras que escreveram música para violão nos anos 1970. Embora sua pesquisa se circunscreva aos limites de sua atuação artística, sua abordagem integra os estudos de gênero, os quais têm oferecido subsídios para refletirmos a restrição de liberdade, a exploração sexual, o feminicídio, o pré-julgamento moral e muitos outros problemas enfrentados especificamente pelas mulheres. Esses problemas não podem permanecer naturalizados e nós nos somamos à parte da sociedade organizada que percebe e critica esse estado de coisas. A violência contra a mulher hoje tem nome, legislação e demandas em política pública próprias, indo além da violência urbana a qual todos estamos submetidos. 

Oferecemos todo o nosso apoio e solidariedade à Pauliane Amaral e sua família, para que os nomes corretos sejam dados a esse crime. Sua dor e sua luta é de toda a sociedade esclarecida. Também apoiamos os manifestos que estão sendo elaborados pelas associações, especialmente a Rede Sonora – Músicas e Feminismos.

Assinam

Professores e pesquisadores de violão das três universidades estaduais paulistas:

Prof. Dr. Edelton Gloeden (USP)

Prof. Dr. Gilson Antunes (UNICAMP)

Profa. Dra. Gisela Nogueira (UNESP)

Prof. Dr. Luciano Morais (UNESP)

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