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Paulo Martelli e o Piano de Nylon

Por Alessandro Soares

Espécie de alaúde moderno ou piano de nylon. É assim que Paulo Martelli - um dos principais intérpretes de violão de 11 cordas do mundo na atualidade - refere-se a seu alto-guitar, fabricado pelo luthier Samuel Carvalho. Com o instrumento, gravou o magnífico e inovador CD A Bach Recital, lançado em maio pela Guitar Coop. A respeito deste disco, Fabio Zanon afirmou: “um épico. Realmente parece que a gente está ouvindo o Glenn Gould ou alguém dessa magnitude”. Já Marcelo Kayath destaca a fluência, precisão técnica, musicalidade e beleza nas interpretações.

Martelli, de fato, anda produzindo mais do que nunca. Praticamente um lançamento de fôlego a cada mês. Em breve sairá do forno o DVD A Bach Recital, igualmente pela GuitarCoop, que gentilmente antecipou ao Acervo Digital do Violão Brasileiro o vídeo inédito da Gigue da Suíte BWV 1008, disponível a partir desta segunda-feira (10/07).

Em agosto, o violonista entra novamente em estúdio para gravar um CD de transcrições inéditas de J. S. Bach para Alto-Guitar (GuitarCoop), que ganhou o prêmio ProAc Cd erudito 2017. No mesmo período, o selo SESC dispõe nas lojas o disco Paulo Martelli Debut (relançamento do seu primeiro CD), produzido originalmente em 1995, pelo selo Canadense GRA, no qual interpreta peças de Diabelli, Paganini, Harris e Castelnuovo-Tedesco. E tem mais: em setembro o SESC lançará a Caixa de 10 DVDs do Movimento Violão, a monumental série criada por Paulo, considerado um marco na história mundial do instrumento.

Paulista de Araraquara, Martelli já foi premiado em diversos concursos, como o IV Concurso Nacional Villa-Lobos em Vitória, no Espírito Santo, o I Concurso da Faculdade Mozarteum, e o IX Concurso Jovens Concertistas Brasileiros. Em 1993 mudou-se para os Estados Unidos, onde cursou Mestrado e Professional Studies na Julliard School e na Manhattan School of Music, desenvolvendo seu trabalho sobre sistemas de tablaturas para alaúde. Em 1999 estudou também sistemas de notação em tablaturas e ornamentação barroca, novamente na Manhattan School of Music, onde recebeu o Prêmio Andrés Segovia, em 2000.

Semana passada, entrevistamos Paulo Martelli por e-mail, que nos contou um pouco sobre sua trajetória musical e detalhou os lançamentos do ano.

Ouça faixas selecionadas do CD A Bach Recital, na Discografia do Acervo Digital do Violão Brasileiro. Compre este disco no site da GuitarCoop

Acervo Violão - Recentemente você lançou o CD A Bach Recital, seu quinto trabalho solo. Mas desde 2009 você já vinha registrando de forma maravilhosa boa parte do repertório de Bach em vídeos e em discos do Movimento Violão. Como foi o processo até o resultado final?

Paulo Martelli - Nos últimos anos eu vinha me dedicando a registrar meu trabalho em áudio/vídeo, com os DVDs do Movimento Violão (2010-2012) e nos programas para o SESCTV (2009-2014). O primeiro programa do Movimento Violão que gravei para o SESCTV foi em 2009, cujo repertório era composto da famosa Suite Koyunbaba de Carlo Domeniconi e a Suite BWV 1008 e Sonata BWV1001 de Bach – disponibilizados no Youtube. Em 2012 eu gravei um programa em duo com Marco Pereira na première das Lendas Amazônicas (Fantasia Concertante para dois violões e orquestra); em 2013 gravei um programa dedicado à obra de Villa Lobos, com solos terminando com o Concerto para Violão e Pequena Orquestra e, em 2014, gravei um especial integral com obras de J. S. Bach. Agora, ainda no segundo semestre deste ano, teremos o lançamento do meu primeiro DVD intitulado A Bach Recital, cujo áudio já foi lançado em CD pela GuitarCoop. Este CD presta várias homenagens. Primeiramente ao amor da minha vida em música, o compositor Johann Sebastian Bach (1685-1750). O título do álbum foi escolhido em homenagem ao LP de Andrés Segovia (1883-1987) que contém sua gravação histórica da Chaconne. Meu CD também presta homenagem ao luthier paulista Samuel Carvalho, que me presenteou com dois violões de 11 cordas maravilhosos, os quais possibilitaram minha imersão na obra de J. S. Bach. O repertório traz algumas novidades apresentando arranjos jamais realizados no violão, e neste sentido, presta homenagem ao pianista canadense Glenn Gould (1932-1982), um dos meus ídolos em Bach. No total foram mais de dez de anos de pesquisa, trabalho e estudo para traduzir a música do mestre alemão para o alto-guitar. O CD foi gravado no auditório da UNIBES Cultural, prédio do Centro da Cultura Judaica em São Paulo, que para mim é a melhor acústica para violão da cidade. A gravação foi realizada por Ricardo Marui com o equipamento da GuitarCoop, selo que lançou o álbum. A produção é de Henrique Caldas. O design é assinado por Edson Vargas e Eduardo Sardinha. O resultado me deixou muito feliz, pois apresenta o som puro do instrumento sem filtros, captado genialmente por Marui nesta sala de acústica especial. 

No novo disco você gravou a Sonata n.1 para violino BWV 1001, a Suíte 2 para violoncelo BWV 1008, além dos Adagios do Concerto em Ré menor BWV 974 e do Concerto em Fá Menor BWV 1056 e a Sinfonia 975. Mas o teu conhecimento sobre Bach é gigantesco. Foi fácil escolher o repertório?

O repertório deste álbum compreende obras escritas entre 1717 e 1723, período em que Bach viveu em Cöthen e compôs a maior parte de sua obra instrumental. O disco apresenta as diversas formas de arranjos para o alto-guitar. Primeiramente as obras escritas para teclado, como a Sinfonia BWV 975, exemplificando que o violão de 11 cordas é apto à execução do contraponto em várias vozes com perfeição. O arranjo de Bach do Adagio do Concerto para Oboé e Orquestra de Alessandro Marcello para cravo é um excelente estudo de como o compositor reduz a orquestra e o instrumento solista a um único instrumento solo. Apresentar esta obra no alto-guitar traz a sofisticada arte de Bach de arranjador, adicionando excelentes exemplos de ornamentação empregada pelo mestre alemão. Nesta mesma linha, o Adagio do Concerto em Fá Menor para Cravo e Orquestra é um arranjo no qual eu segui o exemplo de Bach, reduzindo o discurso do conjunto instrumental e solista a um único instrumento. Neste caso em particular, eu executo os pizzicatos nas cordas em staccato e a melodia em legato total. Esta técnica lembra o estilo de Glenn Gould ao interpretar a obra de Bach no piano, porém, tendo como base o original do próprio compositor, o qual exige o acompanhamento orquestral em pizzicato pelas cordas. Esses três arranjos apresentam a técnica de redução do discurso, ou seja, ao adaptar as obras de teclado ou mesmo para orquestra e teclado é necessário reduzir o conteúdo a fim de possibilitá-lo no alto-guitar.

Cada peça tem uma história peculiar...

Já o arranjo da Sonata BWV 1001 para violino apresenta outro desafio: o de completar a harmonia e o contraponto proposto pelo compositor no original, lembrando que o violino tem apenas quatro cordas. As obras de Bach para violino são testamentos da genialidade deste compositor, pois apresentam e resolvem problemas jamais imaginados ao violino solo até então. A Suite BWV 1008 para violoncelo, por sua vez, apresenta um problema completamente diferente: o de completar a harmonia e o contraponto sugerido pelo compositor num discurso que emprega um número reduzido de notas. As 6 Suites para cello, bem como as obras para flauta solo, são composições nas quais Bach usa poucas notas, conseguindo perfeição total num discurso muito econômico que não necessita de acréscimos, pois apresenta uma música íntegra e perfeita. Neste caso a dificuldade reside em criar um arranjo que não destrua essa pureza e perfeição. Desta forma o CD “A Bach Recital” apresenta um compêndio de diferentes possibilidades de arranjos para o alto-guitar na obra J. S. Bach.

Numa reportagem recente, você afirmou que faz transcrições e arranjos de Bach combinando o universo barroco com aspectos da interpretação romântica, o que não é tarefa nada fácil. Como são tuas concepções neste sentido?

Os arranjos são realizados estritamente dentro do estilo barroco. Porém, minhas interpretações não se prendem exclusivamente à visão da performance historicamente orientada. Desde a década de 1960 o movimento da música antiga historicamente orientada vem crescendo e apresentando performances que seguem as regras dos tratados de época, sendo geralmente executadas em instrumentos originais, ou réplicas idênticas. O meu trabalho não cabe nesta proposta, pois é realizado em um violão moderno, cuja história é muito nova. O primeiro violão de 11 cordas como conhecemos hoje foi idealizado por Per-Olof Johnson (1928-2000) na década de 1960. Per-Olof acabou ficando mais famoso por ter sido o professor de Goran Söllscher - violonista que popularizou o alto-guitar. Per-Olof Johnson desenvolveu junto com o luthier Georg Boling (1912-1993) o alto-guitar a fim de executar o repertório renascentista dedicado ao alaúde. Consciente do movimento da música historicamente orientada e seus intérpretes, procuro me informar sobre as novas tendências desta vertente. Porém, sou consciente de que a música de Bach teve muitos intérpretes importantes antes deste movimento. Por exemplo, Glenn Gould, um dos maiores responsáveis pela popularização da música de Bach no século 20 é anterior ao movimento da música historicamente orientada (bem como Sviatoslav Richter, Rostropovich, Gilels, Heifetz, Milstein, etc).  Minha proposta é unir as duas tendências, mais por uma questão de gosto pessoal do que por acreditar numa delas. Afinal, Bach é considerado o compositor que une a emoção e razão com perfeição. Creio que me prender a uma vertente seria destruir possibilidades de enriquecimento.

O CD A Bach Recital é realmente divino. Sem falar na incrível de produção da GuitarCoop e no zelo do Ricardo Marui em estúdio. Os elogios são grandiosos. O próprio Marcelo Kayath fala da tua fluência, precisão técnica, musicalidade e beleza nas interpretações. Podes dar alguns exemplos de como trabalhou cada peça e o que mais gostou no resultado como intérprete?

Tudo foi pensado e realizado de forma minuciosa. Sou um perfeccionista e sofro muito com isso. Creio que este trabalho acrescenta muito ao alto-guitar em vários aspectos. Os arranjos foram concebidos com base no conhecimento da retórica barroca, que era a base central da composição de Bach. As danças são apresentadas com seus ritmos característicos e com esmero na articulação. Cheguei a fazer aulas de danças barrocas nos meus anos de Juilliard School, o que enriqueceu minha noção destes ritmos. Há um extremo cuidado na forma de digitar as obras, utilizando sempre que possível “crossing strings”, criando uma sonoridade mais etérea, apropriada para música barroca. Outra novidade reside na execução da polifonia no alto-guitar, utilizando o staccato como um meio de conseguir clareza. A meu ver, o CD busca apresentar uma forma inovadora de conceber Bach no violão. Estou bastante feliz em ver colegas de trabalho que eu admiro se manifestando de forma positiva e entusiasta em relação ao meu trabalho em Bach. Para mim, isso significa que estou no caminho certo. 

Quando será lançado o DVD com obras de Bach?

O DVD A Bach Recital já está praticamente pronto e creio que até setembro teremos o lançamento deste trabalho pela GuitarCoop. Estamos cedendo uma faixa do DVD para vocês divulgarem nosso trabalho no Acervo Digital do Violão Brasileiro.

Você se refere ao violão de 11 cordas como uma espécie de alaúde moderno ou um piano de nylon.  Qual a afinação de cada corda e quais as principais características desse instrumento em termos de sonoridade, tessitura e amplitude?

O violão de 11 cordas tem a mesma tessitura que um alaúde. Ele é afinado uma terça menor acima do violão normal. Desta forma a afinação da primeira a sexta cordas é: sol, ré, si bemol, fá, do, sol – e os baixos apresentam uma escala diatônica de sol a si bemol. Obviamente, o instrumento pode ser afinado diferente, dependendo da tonalidade em questão. A sonoridade é rica e etérea. Os baixos soam por uma eternidade, o que exige grande técnica em apagá-los no momento correto. Sua tessitura ampliada possibilita uma enorme gama de possibilidades de arranjos de obras dedicadas a outros instrumentos, especialmente aquelas destinadas ao teclado.

Nesse violão, os baixos certamente te dão muita liberdade de interpretação e múltiplas possibilidades de arranjo e escolha de repertório. Mas ao mesmo tempo, deve ser bem laborioso conseguir o nível de articulação e controle sonoro que você extrai dele. Quais os principais desafios de trabalhar com um instrumento assim?

Um instrumento com mais cordas de fato cria mais possibilidades. Porém, amplia as dificuldades técnicas de forma infinita. Para ser breve, vou citar apenas a necessidade de apagar as ressonâncias indesejadas a cada mudança de posição e troca de harmonia. Realmente requer muito do polegar da mão direita, além de outras formas de apagar os sons com a mão esquerda também.

Para quem deseja estudar o violão de 11 cordas, que conselhos básicos você dá?

Não aconselho ninguém a embarcar nessa loucura (rsrsr).

Você está finalizando o doutorado. Resumidamente quais as principais conclusões da tua tese?

Sendo bem breve e sintetizando quatro anos em cinco linhas, minha tese centra na Suite BWV 1008 para violoncelo e propõe a realização de arranjos de música barroca tendo como base a retórica barroca. Isso de fato enriquece as possibilidades expressivas do discurso barroco, especialmente em Bach, cuja obra é centrada na retórica em música. É algo de fato muito amplo para ser tratado aqui. É uma síntese do que venho realizando nas adaptações de obras de J. S. Bach para o alto-guitar.

Por quase 10 anos você morou nos Estados Unidos. Estudou muito sobre tablatura de alaúde.

A maior parte da minha formação musical se deu nos Estados Unidos. Lugar onde tive a oportunidade de estudar na Juilliard School e na Manhattan School of Music. Tive professores incríveis e uma vivência musical muito intensa. Na verdade, eu estudei música nos Estados Unidos no mais amplo sentido. Ganhei várias bolsas de estudos da Juilliard School durante aqueles anos. Numa das minhas vindas para o Brasil eu ganhei a Bolsa Virtuose do Ministério da Cultura e desenvolvi um projeto para estudar os sistemas de tablaturas de alaúde com o Mark Delpriora na Manhattan School of Music. Já era um interesse em música antiga que iria culminar em Bach. Curiosamente, ganhei o prêmio Andrés Segovia ao terminar meu Professional Studies nesta instituição. Embora tenha desenvolvido um projeto sobre sistemas de notação em tablatura, confesso que esta premiação se deu mais pelo meu trabalho com a música de Piazzolla (gravada no meu CD Roots, lançado nos Estados Unidos) do que pelo meu trabalho com tablaturas de alaúde.

Sabemos o quanto é difícil ser empreendedor cultural no Brasil. Mas você teve a inciativa fantástica de criar o Movimento Violão, que há mais de uma década rende frutos até então inimagináveis, em se tratando do instrumento, tanto por circular em várias cidades, como também fora do Brasil. E com inúmeras frentes. Ora focando os jovens, ora o concurso, ora apresentações com orquestra. E sempre filmando os recitais com alta qualidade audiovisual.

O Movimento Violão é de fato um marco na história do violão mundial. Estamos no 14º ano ininterrupto de atividades. Tivemos vários anos de atividades no interior paulista, chegamos a incorporar Minas Gerais e Bahia no projeto, bem como duas apresentações no Kennedy Center em Washington. Gravamos mais de 50 programas para o SESCTV, os quais são apresentados cinco dias por semana em cadeira nacional e pela internet há anos por essa emissora. Neste ano, teremos ainda 10 recitais em São Paulo, todos gravados ao vivo, compondo nossa série de programas para o SESCTV. Agora em junho, realizamos o 2º Concurso do Movimento Violão, cujo prêmio maior é a gravação de um programa de TV oferecido aos dois jovens violonistas vencedores.

O Sesc está lançando um box de DVDs com os solistas do Movimento Violão. Pode falar do elenco? Imagino que o conteúdo dos DVDs não abrange tudo o que a TV Sesc já transmitiu até agora. Mas deve abarcar uma parte bem significativa, né?

Sim. 2017 trará um dos maiores feitos da história do instrumento com o lançamento de uma caixa de DVDs com os programas de TV da temporada de 2012 pelo selo SESC. O luxo e esmero desta edição é sem precedentes. Realmente, o SESC não mediu esforços neste empreendimento. O box de DVDs apresenta várias facetas do instrumento e compreende na música de câmara: o Duo Assad e o Quarteto Abayomi; na música solista: Pablo Marques e Eduardo Isaac (Argentinos), Carlos Barbosa Lima, Daniel Wolf, João Carlos Victor, João Kouyoumdjian, Paulo Porto Alegre e Pedro Martelli. A caixa de DVDs apresenta ainda a estreia de “Lendas Amazônicas”, uma Fantasia Concertante para dois violões e orquestra composta por Marco Pereira especialmente para a ocasião. Frente a Orquestra Metropolitana com regência de Rodrigo Vitta, Marco Pereira e eu figuramos como solistas. Creio que este será o primeiro Box de DVDs, pois espero lançar as outras temporadas do Movimento Violão junto ao selo SESC.

Não deve ser nada fácil conciliar o trabalho de solista internacional e o de empreendedor com o Movimento Violão. Não deve sobrar tempo para compor. Sem falar que grandes compositores já dedicaram obras a você. Mas é ótima a trilha sonora que você compôs para o espetáculo de dança “O Homem Que Odiava 2a Feira”. Como é tua relação com a criação de peças?

O Movimento Violão é um trabalho missionário que realizo em prol do nosso instrumento e de nossa história. Graças à formação de uma equipe pequena mas efetiva, hoje posso me dedicar mais aos meus compromissos como concertista. Não sou compositor, mas já compus uma trilha para uma companhia de Ballet de Araraquara chamada Gestus. Trata-se da trilha para o Ballet O Homem que Odiava Segunda-feira do livro do escritor araraquarense Inácio de Loyola Brandão. O espetáculo ganhou o prêmio ‘Caravana Funart’ e viajou todo o Brasil, realizando apresentações no exterior. Entretanto, consciente do que requer uma boa composição, especialmente por trabalhar com a obra de J. S. Bach, as brincadeiras pararam por aí... (rsrsr)

Na tua agenda está previsto reservar um tempo ao repertório contemporâneo e ao violão de seis cordas?

Agora em agosto eu gravo o segundo CD dedicado aos meus arranjos inéditos de obras de Bach para o alto-guitar para a GuitarCoop. Projeto que levou o prêmio CD erudito 2017 ProAc. Logo depois me dedicarei a registrar obras que me foram dedicadas pelos compositores Sérgio Assad, Marco Pereira, Geraldo Ribeiro, Geraldo Vespar, João Luiz Lopes, Mark Delpriora, Douglas Lora, entre outros. Será um álbum dedicado à volta ao violão de seis cordas.

O Acervo Digital do Violão Brasileiro entrou no ar em 8 de setembro de 2014. Casualmente foi data de nascimento de Henrique Pinto e foi o primeiro nome que homenageamos.  Você sempre fala dele com muito carinho, né?

Henrique Pinto foi meu mestre por cinco anos e meu mentor por muito tempo. Ele foi o artista que acreditou em mim, no meu potencial, na minha arte e me fez ir adiante. Ele me adotou, me emprestou violão, me deu partituras, me deu aulas de graça e fez minha arte florescer. Henrique foi um pai para mim e eu nutro muito amor por ele. Sou eternamente grato a tudo que ele me fez de bom e procuro passar essa lição adiante no meu trabalho hoje em dia.

Você também ensina e vem formando excelentes violonistas ao longo dos anos.

Eu adoro dar aulas e tenho excelentes alunos que vem se destacando no cenário nacional e internacional. Não vou citar nomes, pois poderia soar como favoritismo aos alunos não mencionados. Acredito que passar o conhecimento é uma parte importante da vida de um músico. Almejo deixar um exército de excelentes violonistas nesse mundo.

Geraldo Ribeiro é outra referencia pra você. Tu lembras quando ouviu pela primeira vez um disco dele?

Sim, Geraldo Ribeiro é um referência eterna para mim. O disco Nazareth e Barrios lançado nos anos 60 habitou minha imaginação musical durante toda adolescência. Ainda hoje escuto essas gravações com muito prazer e respeito. Geraldo Ribeiro é um gênio da nossa música. Se o Brasil tivesse memória e respeito pelos seus ícones, Geraldo estaria em outra posição. Ele é um compositor de primeira grandeza e figura entre os violonistas mais brilhantes de toda história. Para mim, assim como Horowitz foi considerado o último romântico do piano, Geraldo é o último romântico do violão. Ele é capaz de encontrar um poema entre cada duas notas que toca. Ele é raro e precioso.

No Festival Assad de 2016, você fez um discurso sincero e bem afetuoso a respeito de Sérgio e Odair, logo na abertura do recital deles.

Sérgio e Odair Assad são deuses. Eles ocupam o Olimpo Musical e são adorados pelo mundo afora. Eu conheci os Assad nos anos 90 quando morava em Nova Iorque na casa do Thomas Humphrey. Isso se deu depois de um recital deslumbrante que eles realizaram no Carnegie Hall. Eu imediatamente sintonizei com eles e esse é um amor que dura desde então. Quando os Assad se apresentavam na região de Nova Iorque naqueles anos, eu ia assisti-los sempre. Sem dúvida, foram os melhores concertos de violão que já assisti até hoje. O carisma, perfeição, sincronia, sonoridade e sobretudo a técnica, jamais encontraram paralelos. Hoje em dia, eles vêm ao Brasil todos os anos para ensinar gratuitamente no Festival que criaram em sua cidade de adoção no Brasil - São João da Boa Vista – dando a nós mortais, a oportunidade de aprender e estar com eles. São seres humanos incríveis que nos ensinam que genialidade, humanidade e humildade podem e devem caminhar juntas! Sou fã absoluto!

Você costuma citar nas suas entrevistas a importância de Sérgio Abreu para o teu trabalho. E aqui não podia deixar de te perguntar sobre ele.

Sérgio Abreu é um gênio. Ele formou com seu irmão Eduardo um duo que é sinônimo de perfeição. Suas gravações, seja em música de câmara ou solo, representam o apogeu do violão. Isso é um fato incontestável. Porém, além disso, ele é um ser humano absolutamente fora do comum, de uma generosidade sem paralelos. Ele foi muito importante no início de minha carreira, pois produziu meu primeiro CD, o qual está sendo lançado pelo selo SESC no próximo mês, cujo título nesta edição será “Debut”, por ser meu primeiro CD. Este disco traz pela primeira e única vez até então, os violões que o Duo Abreu usou em suas gravações e em sua carreira. Trata-se de um Herman Hauser de 1930 e um Santos Hernandez de 1920 da coleção de instrumentos históricos do Sergio Abreu. O disco traz também o violão Abreu n.6 apresentando o trabalho de Sérgio como luthier reconhecido internacionalmente. Sérgio é meu mentor até hoje. Para se ter uma ideia, a ordem do CD A Bach Recital foi definida por ele. Sempre que tenho alguma dúvida musical, é a ele que recorro e sempre fico impressionado com as soluções que ele me apresenta. Ele é meu violonista predileto dentre todos pois, para mim, apresenta o corte perfeito nas interpretações, nunca excedendo ou faltando e sempre apresentando uma técnica perfeita aliada a uma sonoridade de beleza inacreditável.

Geralmente os violonistas têm fama de só falarem de violão ou de assistirem apenas a recitais do instrumento. Mas você, com a invejável formação musical que tem, costuma postar no Facebook as tuas paixões por grandes pianistas, maestros e compositores de outros instrumentos. O pensamento musical precisar ser amplo, né?

Apesar de estar sempre bem informado em relação ao meu instrumento, eu nunca penso em termos de violão. A música é objetivo e o instrumento, como o nome já diz, é apenas um meio de expressar e traduzir a ideia musical. Procuro conhecer tudo de música erudita, que é minha predileção e isso inclui todos os instrumentos solo; música de câmara e música orquestral e também seus respectivos interpretes, atuais e do passado. Tenho uma boa formação em Jazz e MPB (de boa qualidade) também. 

 

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