Mário Sève investiga o fraseado do choro e o estilo por padrões de recorrência

Quais os segredos sobre a maneira de se construir, organizar e dispor motivos e frases musicais no choro? Quais os caminhos e como descrever a praxis para músicos que veem no universo artístico dos chorões um modo de expressão? As respostas estão na singular pesquisa do flautista, saxofonista e integrante do grupo Nó Em Pingo D’água, Mário Sève. A metodologia é pautada na investigação dos padrões de recorrência inerentes ao repertório do gênero. A dissertação é uma leitura valiosa para qualquer tipo de instrumento.

Logo no início da dissertação são trabalhados os conceitos de fraseado, articulação, ritmo, notação, regras, estilo e gênero. O texto analisa estilo e relativiza critérios para a classificação de gêneros no âmbito da música popular.

“Contextualizações históricas e musicológicas de gêneros musicais que influenciaram os chorões procuram explicar construções e transformações estilísticas em suas obras. Análises de padrões de recorrência formais, fraseológicos, melódicos, harmônicos, rítmicos e interpretativos mostram de que maneira se dá o fraseado musical no choro”, afirma o autor na introdução da pesquisa.

Baixe e leia a dissertação Fraseado do choro: uma análise de estilo por padrões de recorrência

   

Mário Sève lança mão de estudos de paradigmas das músicas europeia e africana e algumas analogias com o jazz e com a música barroca para esmiuçar os procedimentos usados para interpretação e composição de sub-estilos ou subgêneros do choro (polcas, tangos brasileiros, e choros no padrão sambado).

Ele ressalta não apenas os compositores que criaram a base estrutural do choro, mesclando influências musicais europeias, negras e mestiças, como Henrique Alves de Mesquita, Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Heitor Villa-Lobos. Mas também frisa o papel daqueles que cristalizaram o choro no estilo pelo qual é reconhecido, a exemplo de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Garoto e Waldyr Azevedo. E enumera o legado dessa linhagem de mestres em composições e interpretações de músicos contemporâneos, como Radamés Gnattali, Severino Araújo, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Guinga e Hermeto Pascoal.

Outro aspecto fundamental é a evolução histórica da instrumentação, seja baseada em sopros (flauta, sax, clarinete, trompete ou trombone), seja em cordas (bandolim, cavaquinho, violões) e percussão. “Essa formação instrumental passou a atuar em interpretações e acompanhamentos de outros gêneros brasileiros, como o samba, que por sua vez passou a influenciar o choro. Por sua presença marcante em diferentes fases de nossa história, pode-se considerar a música dos chorões uma importante forma de expressão artística urbana brasileira”.

Regional do Canhoto

Mário destaca que, assim como outros gêneros musicais, o choro tem um estilo marcado por uma série de padrões próprios de recorrência — formais, fraseológicos, harmônicos, melódicos, rítmicos e interpretativos. Composições e interpretações de instrumentistas têm contribuído para a criação desses padrões. “Mas, como relacioná-los? Quais e quantos seriam? Seria possível sistematizá-los?”

Os paradigmas e fontes de pesquisa são vastos: a escrita para piano de Nazareth, a estruturação dos conjuntos de choro por Joaquim Callado, Benedito Lacerda e Canhoto, as pesquisas e gravações de Jacob do Bandolim, e as diferentes orquestrações de Pixinguinha. A partir de partituras e da tradição oral nas chamadas rodas de choro, professores e pesquisadores têm sistematizado o ensino do choro.

O palco principal onde aconteceram tais invenções e transformações é o Rio de Janeiro, sobretudo entre os anos 1930 e 1960. Mário cita também grupos como o Regional de Benedito Lacerda (e sua dupla com Pixinguinha), o Regional de Luiz Americano, o Regional de Dante Santoro, o Regional do Canhoto e de instrumentistas como Altamiro Carrilho, Luperce Miranda e Abel Ferreira. Tudo isso gerou uma boa quantidade de registros — em estúdios de rádios ou gravadoras — que se tornaram fontes e referências para a interpretação do gênero. 

Mário Sève

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