Cartas de amor

Memória: Jose Luis Lara e o verdadeiro tesouro

Por Luis Carlos Barbieri 

(Especial para o Acervo Violão Brasileiro)

A morte trágica do violonista venezuelano Jose Luis Lara (1976-2018) aos 41 anos causou forte impacto em todos nós que o conhecíamos. Ele foi assassinado em Cidade Bolivar, na Venezuela, em 01 de abril, por bandidos que tentaram roubar o carro dele. Não é só a tristeza de perder um amigo jovem, cheio de planos e uma vida pela frente para desfrutar. Perdemos um excelente e premiado violonista, que difundia a música venezuelana e latino-americana em concertos pela Europa, Estados Unidos, China e na própria América Latina.

Jose Luis Lara também era exímio instrumentista tocando o Cuatro Venezuelano e atuava em diversas formações camerísticas. Num momento em que a Venezuela atravessa uma delicada situação política e econômica, o país perde um professor competente e muito querido (basta ler os comentários de seus alunos e colegas nas redes sociais).

Ele também tinha forte atuação como promotor cultural. Foi o fundador e diretor artístico do FIGA - Festival Internacional de la Guitarra de Angostura (Ciudad Bolivar / Venezuela), com quase 20 anos de existência, e coordenador das primeiras edições do Festival Internacional Maracay en Guitarra.

(José Luís Lara, Luís Carlos Barbieri e Luis Zanazzo no Rio de Janeiro, 2012 / Foto: Rafael Carneiro Pinto)

Conheci Jose Luis em 2011 no Festival Guitarras Del Sur, em Assunção, no Paraguai e, como sempre acontece nos festivais após os concertos, todos os envolvidos se encontravam para jantar, tomar uma cerveja e conversar. Mas que sempre resultava num importante intercâmbio de experiências. Ele era uma pessoa muito educada e agradável. Sempre interessado na música brasileira e em divulgar a música venezuelana.

No ano seguinte, participei do FIGA e fui muito bem recebido por ele, que se desdobrava em atender e agradar a todos. Na oportunidade em que Jose Luis esteve aqui no Rio de Janeiro, na Mostra de Violão Fred Schneiter, fez uma belíssima apresentação. Era um virtuose e tudo parecia muito fácil, mesmo as passagens mais complexas. Sua técnica era limpa e eficiente. A música fluía naturalmente.

Em nosso ultimo contato, lembro-me claramente de uma conversa pelo telefone, numa manhã de domingo. Ele me disse que gostaria de vir fazer o mestrado no Brasil. Conversamos sobre a grave situação, na Venezuela e no Brasil, e enviei algumas das informações que havia me solicitado. Este projeto estava se delineando.

No final de 2017, ele manteve contato estreito com o violonista Gilson Antunes para vir fazer o mestrado na Unicamp. Gilson relatou que Jose Luis estava indo passar um tempo na Colômbia, mas que os planos de vir estudar no Brasil estavam indo em frente. Infelizmente, não deu tempo.

Outro brasileiro que conhecia bem Jose Luis Lara é Fabiano Borges. Em 2014, Lara e Fabiano participaram de um festival internacional de violões em Cuba, onde tocaram juntos nas atividades informais do evento. Fabiano tentou viabilizar um concerto em Brasília em duo com o Lara, com repertório de peças brasileiras e venezuelanas, mas devido a imprevistos a iniciativa não se concretizou. Para Fabiano, fica a irmandade e os valores que Lara deixou para amigos e colegas. 

Todo o ocorrido foi uma lástima. Esta é uma perda irreparável para o violão e a cultura, principalmente, para nós da América Latina. Mas Jose Luis Lara viverá nas gravações que deixou, na influência e nos ensinamentos que passou para seus alunos, no árduo trabalho em desenvolver e promover a cultura e o violão em seu país e na amizade que cultivou em todos nós. Este é o verdadeiro tesouro que ele nos deixou, e isto, ninguém poderá roubar ou assassinar.

 

VOLTAR
NIG

Tags