Coluna Ivan Paschoito

Violão e Mestres: história e sonho de uma revista

Turíbio Santos e Paulinho Nogueira em 1966

Por Ivan Paschoito*

Há 50 anos, em novembro de 1968, a edição 9 da revista Violão e Mestres prometia para o número seguinte uma cronologia do violão, organizada por Isaias Sávio e, melhor ainda: completa e revisada. Ficou na promessa. Não houve próximo número. Esse era o fim de uma história — ou sonho, não sei — que começara alguns anos antes, em 1964, editada pela Giannini.

A Giannini, que surgiu em 1900, a Del Vecchio (em 1902) e a Di Giorgio (1908), todas fundadas em São Paulo por imigrantes italianos e ainda atuantes nos dias de hoje, eram as fábricas que dominavam o mercado de violões no Brasil, no século passado. Curioso é que, em certa medida, todas transcenderam o papel de indústria e aqui começa a nossa história.

Além de fabricarem instrumentos de corda, ou só violões, caso da Di Giorgio, cada uma a seu modo contribuiu também com a literatura e a história do violão no Brasil. A Del Vecchio, desde a década de 1930 e antecipando-se às grandes editoras, publicou um catálogo bastante razoável de partituras para o instrumento e um famoso método, até hoje disponível. 

A Di Giorgio, nos anos 1960, imprimiu álbuns de partituras, lançou LPs e manteve por muitos anos no ar o programa de rádio Recitais Di Giorgio. A Giannini, por sua vez, editou a revista Violão e Mestres. (Manteve também, mais ou menos na mesma época, um programa de televisão com o mesmo nome e, assim como a revista, também um tanto irregular na periodicidade.)

Até recentemente o acesso a essa revista era restrito e poucos colecionadores e praticamente indisponível em sebos e bibliotecas públicas. Mas a partir de uma iniciativa minha, junto com o produtor Alessandro Soares, o violonista Paulo Von Bruck Lacerda (integrante da Camerata Violonística) e mais o aval da Giannini, a Violão e Mestres agora está sendo digitalizado pelo Acervo Digital do Violão Brasileiro para download gratuito.

   

Notas violonísticas

Violão e Mestres foi a terceira revista brasileira a ter como objeto o violão — seguindo a iniciativa pioneira de O Violão e A Voz do Violão, publicadas no Rio de Janeiro entre 1928 e 1931 — e apareceu num momento muito favorável para o instrumento. Esta pequena nota, na última página do primeiro número da Violão e Mestres, numa seção chamada “Notas Violonísticas”, serve de indicador:

De Buenos Aires comunica-nos a Ricordi Americana: venderam-se no ano de 1963 cerca de 11.405 exemplares das transcrições e originais de Isaias Sávio. Registramos o fato com a satisfação de quem vê crescer cada vez mais o número de pessoas que se dedicam ao estudo do violão. 

Arrisco dizer que qualquer produto que venda quase 1 mil exemplares por mês pode ser considerado bem sucedido, hoje e mais ainda em 1963. E mais: em se tratando de material musical impresso, outro ponto para o sucesso.

Isaias Savio

Dilermando a Duo Abreu

O violão popular no Brasil ­— ou pelo menos no eixo Rio–São Paulo — ganhara enorme prestígio com a Bossa Nova. Nomes como José Rastelli, Paulo Barreiros, Dilermando Reis e Paulinho Nogueira gravaram numerosos elepês nessa década, alguns hoje fundamentais.

O violão erudito também ia muito bem e mostrava o que sabia, no palco, no vinil, aqui e no exterior, com Turíbio Santos, Maria Lívia São Marcos, Carlos Barbosa-Lima, Geraldo Ribeiro, Darcy Vilaverde, Duo Abreu. Tinha de tudo para todos os gostos e a Giannini entendeu que uma revista aberta a qualquer tendência do mundo do violão, poderia registrar esse momento especial.

A revista

Ao contrário das partituras da Del Vecchio ou discos da Di Giorgio, a revista era gratuita e distribuída informalmente, restrita ao círculo da Giannini, portanto. Difícil dizer se foi um erro ou acerto. Quase completamente financiada pela fábrica, contava apenas com pequenos anúncios de lojas do ramo, escolas e professores, espaço vendido a “taxa módica”, segundo o expediente da revista. O primeiro número saiu em março de 1964, o nono e último, em novembro de 1968.

Nove edições no total, distribuídas em pouco mais de quatro anos. A proposta inicialmente declarada era de periodicidade trimestral, o que nunca chegou a acontecer. Não sendo profissionais da área, certamente aquelas pessoas não tinham ideia de onde estavam se metendo. Foram lançados dois números em cada um dos primeiros quatro anos e no último, 1968, apenas um. O número de páginas variou entre 34 e 66, tendendo a crescer com o tempo. 

Redatores

O time que produzia V&M também variou ao longo da vida da revista, mas contou sempre com os nomes muito importantes do violão da época, principalmente de São Paulo, onde era editada: Alberto Amendola Heinzl, Nelson Cruz, Isaias Sávio, Ronoel Simões. Colaboravam também, de alguma forma, Alfredo Scupinari, Manuel São Marcos, Antonio Rebello, Jodacil Damasceno, Milton Nunes, Nicanor Teixeira. (Aliás, nessa época a Giannini fabricava o violão modelo 1011, instrumento que era sério candidato ao melhor violão fabricado por uma indústria nestas bandas: Paulinho Nogueira teve um até o fim da vida. Maria Lívia e Barbosa-Lima usaram durante um período.)

Qualquer assunto que tivesse a ver com o violão candidatava-se a ser pauta para a revista; exceto, naturalmente, tudo o que fosse produzido pelas outras duas fábricas concorrentes. (Há lançamentos notáveis durante a vida da revista, como o LP Violão em Noite de Gala, de Geraldo Ribeiro; ou o primeiro álbum de partituras de Barrios, ambos produzidos pela Di Giorgio. (V&M fez vista grossa.)

Maria Lívia São Marcos

Conteúdo

De maneira bastante reduzida e aproximada, é possível classificar o conteúdo da revista em algumas categorias mais significativas. Primeiro, os perfis de violonistas ou compositores do violão, vivos ou do passado, brasileiros ou não e sem qualquer distinção. No primeiro número, por exemplo, Canhoto e Armando Neves convivem tranquilamente com Segóvia e Sor. Depois marcaram presença Dilermando, Villa-Verde, Nicanor Teixeira, Jodacil Damaceno, Luiz Bonfá, Paulinho e muitos outros. Turíbio, Maria Lívia e Barbosa Lima, pela importância e evidência de que desfrutavam naquele momento, eram presença constante, muitas páginas da V&M foram dedicadas a eles. E, ao contrário, há também curiosos perfis de pequenos prodígios do violão, promessas que não aconteceram, nomes que ficaram no caminho.

A História do violão era outra categoria presente, pelas mãos de Sávio e Ronoel, principalmente. Sávio publicou uma detalhada linha cronológica do instrumento, publicada em partes ao longo de alguns números, aquela mesma que mencionamos lá no começo, prometida completa e revisada no número 9. Ronoel escrevia sobre o violão em São Paulo, coisa que conhecia bem. Além disso, já colecionador obsessivo nessa época, escrevia também, muito detalhadamente, sobre o que mais gostava: discografias.

Luiz Bonfá

Partituras

Outra seção constante em todos os números eram as partituras para violão, uma ou mais em cada número. Também ganharam espaço com o tempo: uma no primeiro número, cinco no último. Foram 22 no total, sempre de autores diferentes e a maioria delas impressa pela primeira vez em Violão e Mestres. Algumas, depois, viriam a ser publicadas por editoras de música: Valsa nº 1 (Armando Neves); Bachianinha nº 1 (Paulinho Nogueira); Elegia (Milton Nunes) e Jequi-Bach (Albanese/Pereira). Há também as que nunca saíram das páginas da revista, mas talvez devessem, como O velho Castelo (Mussorgsky/arr. Medeiros) e Canção da Felicidade (Barroso Neto/arr. Savio). Outras, ainda, repousam em justo esquecimento.

Eu destacaria também como ponto alto (e às vezes não tão notável) do conteúdo, a iconografia. Muitos nomes do violão às vezes parecem ser apenas um nome, com uma obra, mas sem rosto. São poucas ou raras as suas fotografias. V&M teve também esse mérito, o de preservar algumas fisionomias menos conhecidas: Alfredo Scupinari, José Oliveira Queiroz, Antonio Sinópoli, Vital Medeiros, Nelson Cruz, Jamil Anderáos, Atílio Bernardini, Osvaldo Soares, José Ferreira Filho.

No mais, notas diversas, lançamentos de discos ou partituras, concertos, concursos e, uma ou duas vezes, longos e lamentosos obituários.

Leitores

É difícil, para mim pelo menos, avaliar o alcance geográfico, digamos, que teve a V&M. Avaliando segundo a minha própria experiência, V&M não chegou tão longe quanto os materiais publicados pela Del Vecchio e pela Di Giorgio; estes eu conheci, estavam nas lojas, eram expostos e podiam ser comprados; da revista da Giannini só tomei conhecimento no meio da década de 1970, quando ela já não existia mais. E demorou ainda mais algum tempo, quando pude comprar uma coleção completa de um colecionador, para que eu pudesse ter a revista em mãos.

Sobre as tiragens, não há qualquer informação. A própria revista menciona casualmente “números esgotados” e “prestígio internacional”, o que não esclarece nem significa muito. A edição número 6 promoveu o sorteio de 200 exemplares do LP Seis Brasilianas de Theodoro Nogueira, gravado por Geraldo Ribeiro. (Ouça este LP na íntegra aqui) Para concorrer, os leitores deveriam escrever à revista, respondendo onde nasceu Tárrega. No número seguinte, a lista dos contemplados, duzentos nomes, alguns notáveis: Paulinho Nogueira, Jodacil Damaceno e Mozart Bicalho. Foi mesmo um sorteio? Quantas pessoas escreveram? Isso nos daria uma ideia, mas a resposta se perdeu com aquelas pessoas. Todos já se foram.

Legado

Mas números e tiragans, frente ao que ela deixou, importam menos. Eu acredito que temos ali, naquelas nove revistas, um painel muito razoável do que se fazia de mais significativo no violão brasileiro na década de 1960.  Há também, claro, nomes e matérias internacionais, mas em número significativamente menor, certamente não tão representativas. O violão brasileiro, porém, está lá, quase todo: seus nomes e rostos, histórias, seus discos, concertos, publicações e demais feitos.

Quem não viveu aquela época, lendo as revistas pode saber muito sobre o que era o nosso violão nesse tempo. Hoje é possível dizer que os artigos poderiam ser melhores, mais informativos. Mas a revista, além de feita por não profissionais, ainda é de um tempo em que os textos tendiam um pouco mais para o laudatório que para o factual. Um resto de herança das pioneiras (O Violão/A voz do Violão). 

Desde que a conheci, V&M sempre me pareceu feita com amor e seriedade. Só isso, sem outras preocupações. Era feita por pessoas que amavam o violão, que tinham outras profissões ou atividades e que dedicavam voluntariamente tempo e esforço para que a revista existisse. Um projeto com um enorme feitio de sonho.

Talvez uma produção mais profissional, uma revista vendida em bancas, com tiragem de milhares, periodicidade definida e aberta à publicidade tivesse alcançado, em todos os sentidos, um êxito maior. Mas, assim sendo, muito provavelmente, teria de se adaptar a demandas de mercado, anunciantes e distribuidores. Já não seria a mesma revista, seria mais um produto e menos um sonho. E, claro, seria um projeto para uma editora e não para uma fábrica de violões.

 

* Ivan Paschoito é editor de partituras, com trabalhos publicados pelas maiores editoras brasileiras (Fermata, Ricordi, Vitale) e americanas (Guitar Solo Publications, Amazon e SMP Press). Atualmente dirige a própria editora, a Legato, especializada em música impressa para violão.

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