Coluna Alessandro Soares | Entrevistas

Pesquisador revela segredos e estratégias para a performance musical em duo de violões

Duo Siqueira Lima/Crédito: Elisa Gaivota

Por Alessandro Soares

Um dos orgulhos que todo brasileiro deveria ter de seu país é o de produzir alguns dos maiores duos de violão do planeta em todos os tempos. Desde o lendário Duo Abreu e o incrível Duo Assad (provavelmente o mais influente dos últimos 30 anos no mundo), passando pelo Duo Barbieri-Schneiter (que marcou a década de 1990) até os duos da nova geração: Duo Siqueira Lima e Brasil Guitar Duo. E não param de surgir excelentes e criativos duos no cenário atual. 

Mesmo assim, parecia faltar um método, um caminho das pedras mais seguro e menos tortuoso, acessível em forma de livro ou estudo acadêmico, para alcançar as melhores práticas em performance musical para esta formação camerística. Mas recentemente o violonista e professor paulista Helder Pinheiro, 30 anos, deu um salto significativo ao preencher essa lacuna quando defendeu a inovadora dissertação A Construção da performance musical em duo de violões, em agosto deste ano, por meio do qual se tornou mestre em música pela Universidade Estadual de Campinas. BAIXE A PESQUISA AQUI OU NA BIBLIOTECA DO ACERVO

O violonista integra o premiado Duo Ricardo Henrique e Helder Pinheiro desde 2011, que explora o repertório brasileiro dos séculos 20 e 21. Em 2013 a dupla foi vencedora na categoria Música de Câmera para violões do XVII Concurso Nacional de Violão Musicallis, em São Paulo. No ano seguinte, obteve o segundo lugar na mesma categoria no XI Concurso Internacional de Guitarra Raúl Sánchez Clagett, no Uruguai. E agora em 2017 Ricardo e Helder faturaram o primeiro prêmio do Concurso Souza Lima, igualmente na categoria camerísitca. Além de se apresentar regularmente em diversas cidades brasileiras, o duo também sempre busca aprimorar a performance musical participando de importantes festivais como Vital Medeiros e Festival Assad.

Duo Ricardo Henrique e Helder Pinheiro

Nesta breve entrevista, Helder Pinheiro defende uma série de estratégias de estudos para uma performance em duo de violões. Segundo ele, os integrantes de um duo precisam escolher a poética interpretativa que irão trabalhar, antes mesmo de executarem uma nova obra. Os parâmetros básicos para um duo aperfeiçoar a expressão musical são as seguintes: definir articulações, criar uma pulsação conjunta, fazer a devida execução das dinâmicas e dos planos sonoros.

Nos anexos da pesquisa, constam fartas entrevistas com Sérgio Assad, João Luiz (integrante do Brasil Guitar Duo), Luís Carlos Barbieri (do Barbieri-Schneiter), Cecília Siqueira e Fernando Lima (Duo Siqueira Lima). Para os interessados no tema, recomendamos a leitura da íntegra do estudo. Confira a seguir os principais aspectos defendidos pelo violonista.

Acervo Violão – A tua pesquisa é inovadora, de tema pouco explorado. Nela você estabelece o que chama de “fundamentos e estratégias de estudos que podem ser utilizadas na construção de uma performance em duo de violões”. Como é isso?

Helder Pinheiro - Há muitos anos, a performance musical é investigada e os trabalhos disponíveis atualmente abordam os mais variados objetos em torno dessa subárea de pesquisa em música. Apesar da variedade, não encontrei trabalhos específicos sobre a performance musical em duo de violões. Percebi que o tema ainda é pouco explorado na academia e isso gerou uma série de dúvidas e desafios. Em relação aos fundamentos da construção da performance em um duo de violões, ficou evidente em minha pesquisa que os integrantes de um duo precisam escolher a poética interpretativa que irão trabalhar. Isso tem de ocorrer antes mesmo de executarem uma nova obra, pois tal escolha será determinante para a resultante sonora e para a interpretação a ser estudada. No que tange às estratégias de estudos, selecionei e me aprofundei em uma série delas. Destaco as seguintes: criar uma concepção interpretativa conjunta da obra; elaborar as digitações de uma obra musical em duo de violões; assimilação e memorização da performance de uma obra musical; uso do metrônomo; prática mental; estudos individuais; estudos performáticos coletivos e, para finalizar, as estratégias para a autoavaliação. Cada uma delas foi amplamente detalhada no decorrer do trabalho e podem ser utilizadas em etapas específicas da construção da performance em um duo.

Duo Barbieri/Schneiter

O que é mais desafiador para se conseguir unidade sonora e equilíbrio de interpretação num duo de violões?

Há uma série de fatores a serem pensados. Primeiramente, em relação à expressão musical: a definição das articulações; a criação de uma pulsação conjunta; a devida execução das dinâmicas e dos planos sonoros. Além disso, também é necessário pensar sobre os elementos extramusicais como, por exemplo, os modelos dos instrumentos e das cordas, pois estes influenciarão diretamente no resultado sonoro. O tipo de toque e qualidade das unhas também são essenciais para a unificação sonora. Isso dependerá, no entanto, de outros fatores. Se os violonistas de um duo iniciaram seus estudos conjuntamente, pode ser mais fácil de construir técnica e sonoridade parecidas. Mas se começaram a tocar em duo depois de terem esses parâmetros já consolidados, isso será mais difícil de acontecer, mas não impossível. Só terão bastante trabalho pela frente. (Esse é o caso do duo do qual sou integrante).

Certo...

Para elucidar essa questão, podemos citar o Duo Abreu e o Duo Bream/Williams. Sérgio e Eduardo Abreu adquiriram sonoridade muito parecida e, por isso, quando precisavam utilizar a unidade sonora não havia problema. Agora, os integrantes do duo Julian Bream e John Williams tinham técnicas e concepções sonoras antagônicas. Ainda assim, souberam utilizar bem essas diferenças para fazer música sob a ótica da não unificação sonora. Esse assunto foi bem detalhado na tese do Luciano Morais. Como sabemos, isso não foi um problema para eles. Aliás, tiveram um trabalho em duo cujas gravações são referências até hoje para qualquer pessoa que se interesse por essa formação camerística. Para se fazer música em duo não é necessário ter unificação sonora. Ela é somente uma das poéticas interpretativas possíveis. Os parâmetros básicos que considero essenciais para desenvolver um trabalho para qualquer duo ou grupo de câmara (que buscam ou não a unificação sonora) são a pulsação, a dinâmica e os planos sonoros.

E a pulsação conjunta?

É muito importante. A sincronia de ataques entre os dois violonistas está diretamente relacionada com pulsação do grupo e esta, por sua vez, com a unificação sonora. Por meio das entrevistas que colhi para a dissertação, constatei que a pulsação é um parâmetro musical que é fundamental e que não é fácil de desenvolvê-lo conjuntamente, principalmente quando se trata em alterar o tempo para fazer rubatos, acelerandos e ralentandos. Fazer isso de maneira sincronizada realmente é bastante difícil e isso gera um desafio musical muito saudável para os integrantes do grupo, pois para se criar uma pulsação coletiva os dois integrantes terão que escutar um ao outro tão bem quanto se escutam a si mesmos. Considero que desenvolver essa “escuta dupla” é fantástico para o aprimoramento musical de qualquer violonista. Por isso, acredito que o duo de violões é uma formação que pode proporcionar um grande desenvolvimento performático musical para qualquer violonista.  

Houve mudança prática na performance do Duo Ricardo Henrique e Helder Pinheiro após a realização dessa pesquisa?

A pesquisa nos evidenciou que a fundamentação metodológica para a preparação de nossas performances estava precisando ser revisitada e melhorada. Os estudos teóricos do mestrado aliado às reflexões sobre as entrevistas que fiz com Sérgio Assad, Fernando Lima e Cecília Siqueira, João Luz Rezende e Luís Carlos Barbieri (todas essas entrevistas estão disponíveis nos anexos da dissertação) nos possibilitou melhorias significativas. Mas, sinto que continuaremos a aprender com essa pesquisa durante toda a nossa vida enquanto performers. Na verdade, acredito que somente iniciamos o caminho para essa longa jornada.

Quais as novidades para 2018 com relação a este duo?

Estamos tralhando em alguns arranjos e transcrições sendo que a maioria das músicas são brasileiras. Nossa meta é lançar nosso primeiro EP no próximo ano e estamos batalhando muito para que isso ocorra. 2018 promete!

Que estratégias você recomenda para violonistas que pretendem formar um duo? Ou sentem falta de estudar determinadas técnicas?

A primeira delas é decidirem coletivamente como interpretarão as obras que irão executar. O canto pode contribuir muito durante essa etapa. Decidido isso, considero importante estudar lentamente cada uma das frases e sempre pensando em todos os parâmetros envolvidos em uma execução musical. Me refiro a articulação, dinâmica, pulsação, planos sonoros, fraseados, sonoridade, postura, relaxamento do corpo, etc. Recomendo a utilização do metrônomo para essa etapa. Assim, quando esses parâmetros forem incorporados, os músicos poderão começar a acelerar o andamento nos estudos, pois contarão com uma base de execução muito sólida. Em relação aos estudos individuais, é interessante que os músicos respeitem as decisões que foram tomadas conjuntamente e pratiquem suas partes sempre pensando e relacionando com a parte do outro violão, pois a música é o resultado sonoro dos dois violões e se cada integrante pensar somente na sua própria parte, ele não estará praticando a interpretação musical como um todo. Uma estratégia nesse caso é cantar a parte do outro violão,  quando possível, enquanto se estuda sozinho. Para quem se interessa pela performance a partir dessa formação instrumental, recomendo a leitura da pesquisa que desenvolvi durante meu mestrado (disponível no Acervo do Violão Brasileiro). Lá me aprofundo em cada uma dessas questões sempre me reportando a músicos com vasta experiência nessa formação camerística. Espero que esse trabalho ajude no aprimoramento performático de muitos outros músicos assim como ele está ajudando no meu.

   

Helder Pinheiro/Divulgação

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