Cartas de amor

O fino do violão: 90 anos de Paulinho Nogueira

Foto rara de Paulinho Nogueira/Acervo particular Bia Nogueira

Por Carlos Walter

Texto dedicado ao meu recém-nascido Estêvão por ocasião dos 90 anos de Paulo Artur Mendes Pupo Nogueira

Paulinho Nogueira é um melodista e harmonizador genial, um autêntico showman, sensível, repleto de carisma, balanço e técnica sui generis. Um mediador de universos culturais distintos, cuja obra deixou rastros expressivos na cena instrumental, no cancioneiro popular, na educação musical e na luteria pátrias.

Particularizam a diversidade motora de sua estilizada tocabilidade, o timbre cristalino das polpas dos dedos com unhas curtas da mão destra e artifícios técnicos como chord melody, tapping, pedal tone, slide (arraste), pizzicato, campanella, rasgueo, tremolo, percussão no tampo, encordoamento híbrido (1ª corda de aço e demais de nylon)...

“Ele usava predominantemente nylon, mas vira e mexe fazia experiências com afinação e troca de cordas. Essas experiências tiveram expressão plena no período em que criou a craviola, pois além de trabalhar com afinação testava mudanças tímbricas no som das cordas”, confidencia-nos a filha Júlia Nogueira, professora de artes no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo.

O seu legado é um dos pólos estruturantes do violão nacional. A sua vasta discografia, o seu estilo inconfundível e personalíssimo de compor, tocar e arranjar, o seu brilhantismo como professor de violonistas do porte de Antônio Pecci Filho (o Toquinho), a publicação de livros avant-garde (o Método Paulinho Nogueira para violão e outros instrumentos de harmonia e o guitarbook Tons e semitons, ilustrados pela filha Júlia), a gravação da antológica vídeo-aula Violão em harmonia, o reconhecido status de precursor da bossa nova, a invenção da craviola de 6 e 12 cordas fabricada pela Giannini (instrumento no qual o sobrinho Stenio Mendes tornou-se referência), bem como o seu engajamento na preservação ambiental do paulistano Parque da Água Branca traduzem quão era inventivo, biocêntrico, visionário, producente, altruísta e plural.

“Meu pai era realmente uma figura peculiar. Três palavras que melhor o definem para mim: talento, generosidade e luz, muita luz”, assevera a filha Bia Nogueira, educadora há mais de 30 anos em São Paulo, que nos revela como era o cotidiano musical da família Nogueira:“Cresci num meio altamente musical. Quando menina, e até moça já, enquanto meu pai ministrava as suas aulas em seu escritório, minha mãe fazia o mesmo na sala de casa. O som dos violões ressoava por todo o canto. Era um entra e sai de alunos danado. Pessoas felizes entravam e saíam com os seus violões nas mãos, e com a certeza que, de uma forma ou de outra iriam tocar o instrumento. Paulinho e Elza cumpriram seu ofício de ensinar, de forma generosa e responsável, e com muito talento... Mas, antes de mais nada, em sua vida, meu pai era marido de Elza, pai de Artur, Juju e Bia, tio, irmão e, mais tarde um super avô. A família sempre veio em primeiríssimo lugar”.

A emblemática Bachianinha nº 1, lançada em 1960 no LP Brasil, Violão e Sambalanço, sob o título Samba no céu, dá-nos amostras da sua conexão com a atmosfera bachiana, da sua capacidade de intercambiar linguagens e construir um discurso musical expressivo, inteligível, cativante, sutil, personalíssimo e vivaz.

Fiquei enfeitiçado quando a descobri por acaso no nicho do toca-discos da casa dos meus talentosos pais, imersa numa coletânea de arautos das cordas dedilhadas, prensada em 1979 com o mesmo título do LP O Fino do Violão, lançado pelo Paulinho em 1965. Meses depois um tio pianista deu-me uma fita cassete contendo a versão orquestral dessa composição. Tinha doze anos e três convicções: de que a aprenderia a qualquer custo, o violão me acompanharia para sempre e daria prosseguimento à tradição musical familiar.

Não havia internet. Apenas o fino chiado da vitrola, a fita regravável para poupar o disco e a agulha do inevitável desgaste e uma vontade tremenda de internalizar essa fuga à brasileira. Comecei tirando-a de ouvido, sem me dar conta de que a brincadeira desencadearia um gratificante laboratório de apreciação e percepção musicais.

Mais adiante consegui uma partitura surrada (cópia da cópia da cópia). E aos poucos fui decifrando os segredos dos traços e círculos alvinegros grafados no pentagrama, debruçando-me sobre cada nota, degustando cada som, celebrando acertos, aparando arestas, travando um gradual e lúdico contato com a teoria elementar, a rítmica, o solfejo e a prática violonística.

    

Depois, numa época não remota, em que o Google inexistia e a Web dava os primeiros sinais de fumaça, fui à caça de fonogramas e livros em discotecas e alfarrábios. A intrépida busca descortinou outros tesouros como os surpreendentes álbuns A nova bossa é o violão (1964), Paulinho Nogueira (1967), Dez bilhões de neurônios (1972), Moda de craviola (1975), Antologia do violão (1976), Tons e semitons (1986), Late night guitar (1992).

Para referendar a minha ode ao homenageado com o qual conversei por telefone há 21 anos, adquiri uma craviola da década de 70 e nela defendi o seu Soneto em mi menor na semifinal do XV BDMG Instrumental

   

Hoje, quando interpreto as suas peças ou os seus arranjos, sou tomado pela catarse do primeiro contato visceral com o instrumento. Desperto a genuína emoção que senti ao ouvir e tocar a Bachianinha nº 1 pela primeira vez! E tal sensação se repete quando:

1) Escuto o áudio ainda pouco conhecido das suas entrevistas ao jornalista curitibano Aramis Millarch, que podem ser conferidas aqui:

Arquivo 1 - Acervo Aramis Millarch

Arquivo 2 - Acervo Aramis Millarch

Arquivo 3 - Acervo Aramis Millarch

2) Assisto-o no programa Ponto de Encontro da TV Cultura, gravado em 1979

3) Confiro o curta biográfico dirigido por Thaís Andrade

4) Leio o verbete redigido por Jorge Carvalho de Mello para o Dicionário do Acervo Digital do Violão Brasileiro

5) Vejo-o com o amigo e ex-aluno Toquinho num vídeo de 1974

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