Shows | Coluna Alessandro Soares

Recitais mostram panorama musical do compositor Sergio Roberto de Oliveira

Por Alessandro Soares

O maestro e compositor carioca Sergio Roberto de Oliveira (1970-2017) costumava acordar cedo. Por volta das 4h da manhã já estava debruçado no pentagrama. Continuava escrevendo até o sol ficar quente, o trânsito reclamar e a vida cotidiana bater à porta. Daí em diante ia pagar contas e cuidar dos negócios. “Meu legado vai ser minha obra musical. Tenho de arrumar tempo pra criar”, disse-me mais de uma vez. Morto em 19 de julho, de câncer no pâncreas, Sergio deixou uma saudade gigante entre os amigos e um importante conjunto de peças dignas de nota para o mundo.

Uma mostra desse legado pode ser conferida em dois recitais sob o título A Música de Sergio Roberto de Oliveira, nesta sexta-feira (27/10), às 19h (no Teatro Municipal Ziembinski), e no domingo (29/10), às 11h (no Centro da Música Carioca Artur da Távola), no Rio de Janeiro. Organizadas pelo violonista Luís Carlos Barbieri, as apresentações contam com Marco Lima (violão), Doriana Mendes (soprano), Miriam Grosman (piano), Duo Santoro (violoncelos), Quarteto de Clarinetes e Quarteto Atlântico (cordas).

Doriana Mendes e Marco Lima

Barbieri vai interpretar Umas Coisas do Coração, peça histórica na carreira de Sergio por ter sido indicada ao Grammy Latino de Melhor Composição Clássica Contemporânea/2011. Marco Lima tocará Madureira (que Sergio escreveu especialmente para o violonista, sob inspiração na obra de Guinga. Essa partitura, aliás, foi lançada pelo Acervo e pode ser baixada gratuitamente. Lima também vai acompanhar a soprano Doriana Mendes em A Canção Que Não Foi Escrita (sobre poema de Mário Quintana) e Canção do Dia de Sempre.

Já a pianista Miriam Grosman vai tocar a peça Brasileiro. “Ele gostava do meu jeito de tocar. Por sinal, vou gravar três músicas do Sergio em meu CD. Ele até iria compor especialmente pra mim, mas não deu tempo”, afirmou.

A peça a ser tocada pelo Quarteto Atlântico (foto acima), por sua vez, é o Quarteto Brasileiro Nº 1. “Essa obra é inspirada e dedicada a Villa-Lobos, com um caráter bem modal, nacionalista”, destaca Ivan Scheinvar, que faz o 1º violino. Os demais integrantes são Rafael Dias Belo (2º Violino),  João Senna (viola) e Pablo Uzeda (cello).  

Além disso, o Quarteto ClariNet interpretará Pangea. “Estamos fazendo uma versão diferente, com três clarinetas e um clarone, que o próprio Sergio trabalhou com a gente, já no fim da vida. Gravamos no próprio estúdio dele e essa peça vai entrar num CD que estou produzindo só com musicas do Sergio pra clarineta”, descreve Cristiano Alves, que no recital vai tocar com três ex-alunos clarinetistas: Tiago Teixeira, Igor Carvalho e Thiago Tavares (este no clarone).

O Duo Santoro (formado pelos irmão gêmios violoncelistas Ricardo e Paulo Santoro) vai fazer Aos Santos Oro. Quando pedi ao Ricardo para detalhar um pouco a peça, ele preferiu me mostrar um saboroso email do Sergio, afirmando que o título faz um trocadilho com o sobrenome dos intérpretes.

Na mensagem, Sergio Roberto de Oliveira diz ser uma obra muito séria, imbuída de um sentimento pela tradição da música e por uma religiosidade profunda. “O primeiro movimento, ‘Fuguetta’, rende homenagens à tradição do contraponto e fuga dos grandes mestres da(s) Igreja(s). É certamente um dos momentos mais técnicos de todo o meu catálogo de composições: precisava honrar os Santos de uma forma que eles entendessem. E estar no campo de Palestrina e Bach não é moleza…

Sergio prossegue na explicação: “o segundo movimento, ‘Oração’, é bastante lírico e dramático. Me coloco de joelhos diante do divino – pouco importa de qual religião – pedindo minha cura. A linha do violoncelo 2 é uma versão contemporânea (totalmente distorcida) do Prelúdio da Suite Nº 1 para violoncelo de Bach. A linha do 1º violoncelo é totalmente serial”. E finaliza: “o terceiro movimento, ‘Júbilo‘, é uma previsão leve e otimista do momento da minha cura completa – em todos os campos da minha vida. É um frevo – minhas raízes na música popular afloram – e possui um breve momento bem humorado da inclusão de uma Tarantela, para lembrar que os Santos em questão vem de uma tradição italiana”.

A frase final do email de Sergio aos irmãos Santoro não poderia ser melhor: “É isso! Espero não ter lhe enfadado demais com meu texto. Qualquer coisa, pode escrever ou ligar, tá? Estou à disposição. Um grande abraço”. 

Luís Carlos Barbieri

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