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15ª Mostra de Violão Fred Schneiter marca os 90 anos de Nicanor Teixeira e de Edino Kriger

(Duo Cellar)

Por Alessandro Soares e Rosualdo Rodrigues

“Nicanor assistia ao nosso ensaio, tirava um cochilo na cadeira de balanço, geralmente sábado à tarde, depois tomava café conosco e íamos os três para um bar no Catete”. Assim o violonista Luís Carlos Barbieri recorda as vezes em que o perceiro Fred Schneiter (1959-2001) – com quem formou o Duo Barbieri-Schneiter - recebia em casa as visitas do compositor Nicanor Teixeira. A frequência desses encontros era “de caju em caju”, expressão do próprio Fred, sugerindo que ocorram uma vez a cada ano.

Os 90 anos de idade de Nicanor serão marcados na 15ª Mostra de Violão Fred Schneiter, que começa nesta segunda-feira (08/10) e segue até sexta (12/10), na Sala Cecília Meireles - Espaço Guiomar Novaes, no Rio de Janeiro. A lista de convidados desta edição inclui Maria Haro (uruguaia radicada no Rio de Janeiro), Silvina Lòpez e Marcos Pablo Dalmácio (Argentina), Dùo Encuentro de dos Mundos (Chile), Duo CellAr (Chile/Alemanha), Marco Lima (RJ) e a Camerata de Violões, além de Barbieri..

Edino Kirger

Outro compositor nonagenário que também é homenageado na Mostra é Edino Krieger, que manteve com Fred Schneiter admiração recíproca, escrevendo, inclusive, o texto do encarte do terceiro CD do Duo Barbieri-Schneiter e cartas de recomendação ao MinC quando o duo buscava patrocínios. Também compôs Passacalha Para Fred Schneiter para a primeira edição do Concurso Nacional de Violão Fred Schneider.

Passacalha integra o concerto de abertura do evento, com o violonista Marco Lima (dia 8/10, às 18h30), que pautará o repertório nas peças de Krieger. O repertório se completa com Romanceiro, feita para peça de teatro baseado no Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meirelles; Alternâncias; Prelúdio, mais antiga peça de Edino para violão, de 1056, e Ritmata, composta por encomenda de Turíbio Santos, a quem é dedicada.

(Marco Lima)

A maioria das peças é familiar a Marco Lima. “Em 2008, quando Edino completou 80 anos, preparei o repertório das peças solos dele, com exceção de Alternâncias, que não podia entrar porque tinha sido composta para o concurso, e Formosa, que ainda não existia. Desde então, vez em quando eu toco todas essas peças”.

Lima faz parte da história da Mostra/Concurso. Participou da primeira competição, foi finalista e premiado pela interpretação de Passacalha Para Fred Schneiter. Voltou a concorrer em 2003 e participou como convidado em outras edições. “Vou fazer esse recital em homenagem a Edino Krieger depois de muitos anos sem participar, uma honra”.

Duo Encuentro de Dos Mundos

Após o recital de Marco Lima, na mesma noite se apresenta o Duo Encuentro de Dos Mundos, com os chilenos Sebastian Molina (violão) e Belem Abraham (mezzo soprano). Molina interpreta ao violão  Fantasia sobre temas de la Traviata (Francisco Tárrega), La Disyuntiva (Antonio Restucci) e Coplas del Pastor Enamorado (Joaquín Rodrigo). Belem divide palco com Molina em Siete Canciones Populares Españolas (Manuel de Falla).

Na terça-feira (09/10), também às 18h30, Luís Carlos Barbieri apresenta as Valsas Estranhas Nº 1, 2 e 3 (Fred Schneiter), além dos Prelúdios Nº 3 e 1 (Vincente Paschoal), Bonfanti (de Roberto Velasco) e Toccata (de Ricardo Tacuchian). 

Em seguida vem o recital da portenha Silvina Lòpez, cujo repertório é composto das peças Terruño e El abrazo (ambas de Quique Sinesi), Campo Largo e Dos hermanos (de Ernesto Méndez), Vengo a Decirte que te Quiero ((Julio César Oliva),Baião (Carlos Aguirre) e as consagradíssimas Julia Florida (Agustín Barrios) e Tres valses venezolanos (Antonio Lauro). Silvima tem dois CDs dedicados à música latinoamericana, sendo um deles gravado para a Sony México, como prêmio do Concurso Internacional Manuel Ponce.

Maria Haro

O tributo a Nicanor Teixeira, na quinta-feira ((11), ficará a cargo da violonista Maria Haro, que em 2007 lançou o disco Fina Flor: Maria Haro Interpreta Nicanor Teixeira, todo dedicado a composições do músico baiano. “É uma alegria muito grande poder fazer essa homenagem. Estou relançando o CD com a obra dele, então juntou tudo. Acho que é uma merecida homenagem ao querido Nica”.

(Maria Haro e Nicanor Teixeira)

O concerto de Maria Haro incluirá nove peças de Nicanor Teixeira, começando por Olhos que Choram, passando por Auto-retrato, Suíte Pequenas Paisagens, Fina Flor, Flor de Mandacaru, Te Enxerga Mué, Folias de Reis, Lamento do Cantador Nordestino, Concertante II e Catererê das Farinhas.

Nicanor é baiano como Fred, e os dois se aproximaram em 1986, quando o Quarteto Carioca de Violões, do qual Schneiter fazia parte, estava ensaiando Mariquinha Duas Covas, de Nicanor. Daí surgiu uma grande amizade. Não por acaso, Fred compôs “Onde Andará Nicanor?” para violão solo, dedicada ao amigo

Duo CellAr

Ainda na quinta-feira, depois de Maria Haro, vem a apresentação do Duo Cellar, formado pelo violonista chileno Danilo Cabaluz e a violoncelista alemã Julia Willeitner, que se conheceram na Universidade Mozarteum de Salzburgo (Áustria). O repertório deles mistura música clássica européia e a música popular ibero-americana, que é a base do do primeiro CD La Vida Breve, lançado em 2015.

No programa da Mostra, o duo vai tocar Intermezzo (da ópera Goyescas), de Granados, Allegro (da Sonata em La maior)​​, de Boccherini, ​​La Vida Breve​​​​​ (Manuel de Falla), Carinhoso e ​​​​Um a Zero​​​​​ (Manuel De Falla), Alfonsina y el Mar​​​​ (Ariel Ramírez), El diablo suelto​​​​​ (Heraclio Fernández) e 3 Danzas Argentinas Op. 2 (Alberto Guinastera)

Marcos Pablo Dalmacio

Os concertos de Marcos Pablo Dalmacio e a Camerata de Violões encerram a Mostra Fred Schneiter na sexta-feira (12). Multi-instrumentista e compositor argentino radicado no Brasil, Dalmacio é especialista em interpretação de música antiga com instrumentos de época (alaúde, vihuela, guitarra renascentista, guitarra barroca, guitarra clássico-romântica, terz guitar e mandolina).

No recital, vai tocar obras de Adrian Le Roy (Fantasie I, Fantasie II, Prelude - Branle de Bourgogne e Autre Prelude – Tourdion), Guillaume Morlaye (Fantasie I, Fantasie II e La Seraphine), Gregoire Brayssing (Quart Livre de Guiterre e Fantasies I ‘des Grues’, V e VI), Simon Gorlier (Troysieme Livre de tabulature de Guiterne, Canon in Subdyapenté e Autre Canon) e Alberto Da Ripa (Quatriesme Livre de tabulature de Guyterne e Fantasie I)

Camerata de Violões

Já o programa da Camerata de Violões será todo dedicado ao novo projeto do grupo, intitulado Cordas Clássicas, que consiste em transcrições para oito violões de repertório originalmente escrito para orquestra ou quarteto de cordas. O trabalho resultou num DVD, que está previsto para ser lançado ainda em 2018 ou no começo de 2019, segundo Valmyr de Oliveira, que integra o grupo. “Fazer essas transcrições representou um desafio e esse programa é bem diferente dos nossos CDs anteriores”, afirma.

As peças do recital na Mostra são de autoria de Henrique Oswald (1º movimento do Quartteto Op.46, com arranjo de Arthr Gouveia), Leo Brouwer (Toccata/ das Tres Danzas Concertantes, com arranjo Marco Lima), Villa-Lobos (Quase Alegro/ do Quarteto de Cordas Nº8, arranjada por Fábio Nin), Lorenzo Fernandes (Batuque: Reizado do Pastoreiro, em arranjo assinado por Valmyr de Oliveira), Ginastera (Malambo/ da Suíte Estância, por arranjo de Adriano Furtado) e Debussy (1º movimento do Quarteto de Cordas em Sol menor), em arranjo de Rogerio Borda.

Além de Valmyr, a Camerata de Violões é formada atualmente por Adriano Furtado, Artur Gouvêa, Eduardo Gatto, Fabio Nin, Luciano Camara, Rogério Borda e Marco Lima. Criado em 1996, o grupo lançou o elogiado primeiro CD em 2001. O segundo CD obteve indicação ao Grammy 2009 na categoria melhor álbum instrumental. Suítes do Brasil, o terceiro disco, é de 2016, quando o conjunto completou 20 anos de atividades ininterruptas.

(Luís Carlos Barbieri)

Patrocinado pelos amigos

“A edição deste ano ficou muito interessante porque nos quatro dias do evento teremos sempre uma atração internacional. Quer dizer, é curioso que um festival sem patrocínio tenha quatro atrações de fora do Brasil, acontecendo num dos principais espaços culturais do país”, fala o violonista Luís Carlos Barbieri, diretor do evento

A história do evento começou em 2002, com a realização do 1º Concurso de Violão Fred Schneiter, no Teatro Municipal de Niterói e na AV-Rio (Associação de Violão do Rio), fundada pelo próprio Fred no ano anterior. Em 2004, teve a primeira edição da mostra, no Espaço Guiomar Novaes. Em 2005, a mostra e o concurso foram realizados simultaneamente.

De lá para cá, a Mostra de Violão Fred Schneiter acontece anualmente e o concurso, a cada dois anos, em anos ímpares, para coincidir com as datas cheias de aniversário de Schneiter -- ano que vem, o nono concurso homenageia os 60 anos do músico. Desde 2006, o evento é bancado pelo grupo Amigos da Mostra.

“O grupo foi criado informalmente e colabora com doações que viabilizam passagens, hospedagem, pequenos cachês, auxílio alimentação e outros gastos necessários”, explica Barbieri. “Não fico feliz nem orgulhoso de dizer que não temos patrocínio, mas é a prova de que com determinação, garra e vontade de todos, conseguimos manter um evento de altíssima qualidade”, complementa.

Programação completa

Dia 8/10
18h30: Recitais de Marco Lima e Duo Encuentro de Dos Mundos

Dia 9/10
18h30: Recitais de Luis Carlos Barbieri e Silvina López

Dia 11/10
18h30: Recitais de Maria Haro e Duo Cellar

Dia 12/10
18h30: Recitais de Marcos Pablo Dalmacio e Camerata de Violões

(Duo Barbieri-Schneiter)

 

 

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